Schola Cantorum Sancte Michael Archangele: Agenda


# Feliz 2010!; Agenda a definir

# Retorno aos ensaios a partir da segunda semana de março de 2010 na Empem (19h30); provável mudança de dia de ensaio.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O mistério da Epifania, segundo Santo Agostinho

“Vejam! O Criador do ser humano se fez homem para que, Aquele que governa do mundo sideral, se alimentasse de leite; para que o Pão tivesse fome; para a Fonte tivesse sede, a Luz adormecesse, o Caminho se fatigasse na viagem, a Verdade fosse acusada por falsos testemunhos, o Juiz dos vivos e dos mortos fosse julgado por um juiz mortal, a Justiça fosse condenada pelos injustos, a Disciplina fosse açoitada com chicotes, o Cacho de uvas fosse coroado de espinhos, o Alicerce fosse pendurado no madeiro; para que a Virtude se enfraquecesse, a Saúde fosse ferida e morresse a própria Vida” (Sermão 191,1: PL 38,1010).

Na dialética, Santo Agostinho quer que os cristãos subam do temporal ao eterno, do mundo visível ao invisível: «Jesus jaz no presépio, mas leva as rédeas do governo do mundo; toma o peito, e alimenta aos anjos; está envolto em panos, e veste a nós de imortalidade; está mamando, e o adoram; não encontrando lugar na pousada, fabrica seus templos nos corações dos crentes. Para que se fortalecesse a debilidade, se debilitasse a fortaleza... Assim, acendemos nossa caridade para que alcancemos a sua eternidade». (Sermo 190,4: PL 38,1009).



De maravilha em maravilha, de paradoxo em paradoxo, Santo Agostinho retorna sempre à humildade de Deus, motivo de tanto escândalo para os pagãos:

«A humildade é ela mesma que se lança ao rosto dos pagãos. Por isso nos insultam e dizem: Que Deus é esse que adorais? Um Deus que nasceu? Que Deus adorais? Um Deus que foi crucificado? A humildade de Cristo desagrada aos soberbos; mas se a ti, cristão, agrada, imita-a; se a imitas, não trabalharás, porque Ele disse: Vinde a mim todos vós que estais sobrecarregados». (Enarrat. in ps. 93,15: PL 37,1204).

A doutrina da humildade é a grande lição do mistério de Belém: «Considera, homem, o que Deus se fez por ti; reconhece a doutrina de tão grande humildade mesmo em uma criança que não fala» (Sermo 188, 3: PL 38,1004).



Juntamente com o Filho de Deus e sua Mãe sempre virgem, no presépio agostiniano está presente a Igreja, ou a humanidade inteira que salta de júbilo.

A todos deve contagiar a alegria do nascimento: «Saltem de júbilo os homens, saltem de júbilo as mulheres; Cristo nasceu varão e nasceu de mulher, e ambos os sexos são honrados nEle. Pulai de prazer, santos meninos, que escolhestes principalmente a Cristo para imitar no caminho da pureza; brincai de alegria, virgens santas; a Virgem deu à luz para vós para desposar-vos com Ele sem corrupção. Dai mostras de júbilo, justos, porque é o natalício do Justificador. Fazei festas vós os fracos e enfermos, porque é o nascimento do Salvador. Alegrai-vos, cativos; nasceu vosso redentor. Alvoroçai-vos, servos, porque nasceu o Senhor. Alegrai-vos, livres, porque é o nascimento do Libertador. Alegrem-se os cristãos, porque nasceu Cristo» (Sermo 184,2: PL 38,996).

A alegria, pois, tem uma expressão de transbordamento incontido no presépio de Santo Agostinho para todo tipo de pessoas. Toda a humanidade participa desta alegria: «Todos os graus dos membros fiéis contribuíram para oferecer à Cabeça o que por sua graça puderam levar» (Sermo 192,2: PL 38,1012).



Ainda que o nome de Epifania seja reservado hoje para a festividade dos Magos, inicialmente compreendia as duas festas do nascimento e da adoração dos Magos, porque os «dois dias pertencem à manifestação de Cristo» (Sermo 204,1: PL 38,1037). Primeiro se manifestou visivelmente em sua carne aos judeus, e logo a seguir aos gentis, representados pelos Magos do Oriente. Desde então, o recém nascido começou a ser pedra angular da profecia onde se juntavam as duas paredes, os judeus e os gentis.

Os grandes paradoxos de Belém continuam neste mistério: «Quem é este Rei tão pequeno e tão grande, que não abriu ainda a boca na terra, e está já proclamando editos no céu?» (Sermo 199,2: PL 38,1027). O mistério do Menino Deus se enriquecia de novas luzes: «Jazia no presépio, e atraia aos Magos do Oriente; se ocultava em um estábulo, e era dado a conhecer no céu, para que por meio dele fosse manifestado no estábulo, e assim este dia se chamasse Epifania, que quer dizer manifestação; com o que recomenda sua grandeza e sua humildade, para que quem era indicado com claros sinais no céu aberto, fosse buscado e encontrado na “angustura” do estábulo, e o impotente de membros infantis, envolto em panos infantis, fosse adorado pelos Magos, temido pelos maus» (Sermo 220,1: PL 38,1029).

Santa Teofania de Nosso Senhor Jesus Cristo

Tanto os fiéis de tradição constantinopolitana como os de tradição romana conservaram, para o dia 6 de janeiro, uma festa cristológica muito antiga, a primeira em que se sintetizavam todos os mistérios do Senhor ao manifestar-se ao mundo. Mas quando no século IV, a data do nascimento do Senhor foi colocada no dia 25 de dezembro, por iniciativa romana, e logo em seguida aceita também pelos orientais, o conteúdo da festa do 6 de janeiro se diversificou. Para os católicos latinos o dia 6 de janeiro é o dia da Epifania, a manifestação de Cristo «luz das nações» considerada a partir da vinda dos Reis Magos em Belém. Esse evento, para os cristãos bizantinos, está incluído na comemoração global do dia 25 de dezembro. Ao passo que no dia 6 de janeiro eles celebram a «Santa Teofania» do Deus que se encarnou. É a segunda manifestação do Salvador, no início de sua vida pública, por ocasião do seu batismo no rio Jordão, que se deu num contexto trinitário, em que Deus Pai fez ouvir sua voz e o Espírito Santo apareceu em forma de pomba.

Era um dia em que os catecúmenos recebiam solenemente o batismo, como na Páscoa. Os textos litúrgicos da festa da Teofania resumem bem os mistérios fundamentais da fé cristã: encarnação do Verbo, com muitas alusões ao nascimento, e a unidade de Deus na Trindade. Os textos do Próprio são abundantes, também porque a pré-festa começa no dia 2 de janeiro e a pós-festa prolonga-se até o dia 14 do mesmo mês. O tropário principal, por isso o mais repetido, assim reza:

Em teu batismo no Jordão, Senhor,
foi manifestada a adoração da Trindade;
pois a voz do Pai te testemunhou
ao chamar-te Filho bem-amado;
e o Espírito, em forma de pomba,
confirmou a verdade dessa palavra.
ó tu, que manifestaste e iluminaste o mundo,
Cristo Deus, glória a ti!

O kondakion da festa, também ele muito repetido, é de Romanós, o Melode.

Hoje, Senhor, te manifestaste ao universo,
e tua luz brilhou sobre nós;
reconhecendo-te, a ti cantamos:
vieste, apareceste, o luz inacessível!

A manifestação, a Teofania, ocorreu nas águas do Jordão na hora em que Cristo foi batizado; é o que confirma também o ícone da festa, no qual vemos Cristo Jesus, despido das vestes habituais, imerso na água. À sua direita vemos João Batista, humildemente curvado, que por obediência lhe dá o batismo. A cena de fundo mostra um deserto estilizado com uma amostra de vegetação.

Do lado oposto estão uns anjos, atônitos, considerando o admirável evento. Suas mãos estão encobertas pelas extremidades dos mantos, sinal de respeito habitual, nesse caso também sinal de disponibilidade em servi-lo quando sair das águas. No alto do ícone, além do nome "Teofania do nosso Salvador Jesus Cristo," escrito em caracteres abreviados, notamos um semicírculo que indica os céus abertos e do qual desce um raio que, após a figura da pomba, torna-se tríplice, clara alusão à Trindade. No nimbo cruciforme do Cristo notam-se as três letras gregas significando «Aquele que é».

Voltemos aos textos litúrgicos nos quais encontramos a explicação da festa. Num dos textos das Vésperas, São João Damasceno (†749) afirma:

Querendo salvar o homem perdido, Senhor Deus,
não desdenhaste assumir a forma de um escravo,
pois a ti convinha assumir a nossa natureza em nosso favor.
De fato, enquanto eras batizado na carne, ó Libertador,
nos tornavas dignos do perdão.
A ti clamamos, pois:
Benfeitor, Cristo nosso Deus! Glória a ti!

São Cosme de Maiúma (†760), no Cânon Matutino explica:

«O Senhor que tira a impureza dos homens, purificando-se por eles no Jordão, fez-se voluntariamente semelhante a eles, permanecendo contudo o que era; e ilumina os que estão nas trevas, porque recobriu-se de glória.»

E evoca o ensinamento profético:

«Isaías proclama: Lavai-vos, purificai-vos, despojai-vos da vossa malícia perante o Senhor; vós que tendes sede aproximai-vos da água viva. Cristo de fato vos asperge com a água renovando os que se aproximam com fé, e batiza no Espírito para a vida eterna.»

Por fim, nas Laudes, assim se expressa o Patriarca Germano (†733):

Luz da luz, Cristo nosso Deus,
resplandece ao mundo;
Deus se manifesta, povos, adoremo-lo.

Ao ser batizado no Jordão, Salvador nosso,
santificaste as águas,
aceitando a imposição das mãos de um servo,
e sanaste as paixões do mundo.
Grande é o mistério da tua economia!
Senhor, amigo dos homens, glória a ti!

A verdadeira luz apareceu e a todos ilumina.
Cristo, superior a toda pureza, é batizado conosco;
infunde a santidade
na água que se torna purificação para as nossas almas.
Tudo o que vemos é terrestre,
tudo o que contemplamos é mais sublime que os céus.
Mediante a ablução vem a salvação,
mediante a água vem o Espírito,
mediante a descida na água vem a nossa subida a Deus.
Admiráveis são tuas obras, Senhor! Glória a ti!

Uma cerimônia muito antiga, a bênção da água, caracteriza a festa do dia 6 de janeiro. Após o ofício das Vésperas, ou depois da Liturgia eucarística, celebrantes e fiéis dirigem-se a um curso de água, uma fonte, ou então a uma bacia de água colocada no meio da igreja, enquanto o coro canta:

A voz do Senhor ecoa sobre as águas dizendo:
Vinde, recebei todos do Cristo que se manifestou:
o Espírito de sabedoria, o Espírito de inteligência,
o Espírito do temor de Deus.

E acrescenta o tropário da festa. Seguem as leituras bíblicas, entre as quais Mc. 1:9-11, uma longa prece litânica, na qual se pede também para que a água sirva para a cura da alma e do corpo.

O sacerdote acrescenta uma antiga e longa oração e mergulha por três vezes a cruz na água dizendo:

Tu mesmo, Senhor,
santifica agora esta água com o teu Santo Espírito.
Concede a todos aqueles que a usam
a santificação, a bênção, a purificação e a salvação.

A água é bebida em parte pelo povo e, com ela, o sacerdote asperge os fiéis e suas casas. Aqui não se trata da bênção da água para o batismo, embora se encontrem referências bíblicas comuns.

O tema do Cristo, luz do mundo, que insistentemente aparece nos textos litúrgicos da festa, explica o porquê da denominação «Festa das luzes» dado às vezes a essa solenidade. Nela vibra também um sentido cósmico: «Hoje resplandece toda a criação...» «as criaturas celestes fazem festa unidas às terrestres...» e o convite se estende até nós, para que possamos tomar parte na alegria do mundo redimido e iluminado pelo nosso Senhor Jesus Cristo.

Fonte:

«O ANO LITÚRGICO BIZANTINO»
Madre Maria Donadeo

conferir:
http://www.ecclesia.com.br/Biblioteca/liturgia/doze_festas_teofania.html